Se quiseres, confia na pata do coelho: mas lembra-te de que ela não deu sorte nem sequer ao coelho. R. E. Shay

Acordo ortográfico ou a cultura híbrida

Terça-feira, 11 de Março de 2008 às 15:29

Bandeiras dos países de língua oficial portuguesa

Há muito que venho reflectindo sobre o (des)acordo ortográfico que nos leva a uma aproximação do português-brasileiro. Quando grandes multinacionais como o Google e a Repsol prestam-me um atendimento em português-brasileiro, verifico que o interesse vai para além dos livreiros. Afinal de contas, tudo se baseia a uma questão de economizar recursos, rentabilizando-os ao máximo. Acontece por exemplo quando uma multinacional deixa de ter representação em Lisboa passando a uma representação ibérica em Madrid. Paralelamente, abandona-se um dialecto que representa um país com pouco mais de 10 milhões de habitantes a favor de um dialecto semelhante que representa cerca de 200 milhões de pessoas. Se aos mais conservadores isto é escandaloso, numa perspectiva de globalização e capitalismo fará todo o sentido. Assim, a questão não é se queremos mudar de dialecto ou não. A questão é se queremos continuar a viver neste processo de globalização onde se cria uma cultura híbrida entre a cultura local tradicional e a cultura de massa universal. Porque uma coisa influência a outra, não há como separar as águas. E cada vez mais será assim.

Comentários dos leitores

  1. RedTuxer |

    “abandona-se um dialecto que representa um país com pouco mais de 10 milhões de habitantes a favor de um dialecto semelhante que representa cerca de 200 milhões de pessoas. Se aos mais conservadores isto é escandaloso, numa perspectiva de globalização e capitalismo fará todo o sentido. Assim, a questão não é se queremos mudar de dialecto ou não”

    É sempre a mesma coisa, mistura-se alhos com bugalhos! O acordo é Ortográfico, unificação da escrita! Não é um acordo linguístico, não é um acordo de dialectos, é apenas ortográfico! Continua-se a falar exactamente na mesma e em todo o lado como até agora, e o que muda é a escrita nalgumas palavras.

    Quanto ao capitalismo, multinacionais e economização de recursos, não comento nem discordo…

  2. Daniel Marques |

    RedTuxer,

    “É sempre a mesma coisa, mistura-se alhos com bugalhos! O acordo é Ortográfico, unificação da escrita!”

    Estou a falar de duas coisas que quanto a mim andam em paralelo:

    a) um acordo ortográfico que lhe altera o modo como escreve;

    b) de uma política empresarial que o faz receber e-mails com termos como “electrônico” e “usuário”. Ora prenuncie lá “electrônico”. Não lhe altera o dialecto na forma como prenunciaria “electrónico”? O atendimento nessas multinacionais, não é feito num dialecto diferente do seu?

    Antes de vir para aqui dizer que eu misturo tudo, tente primeiro perceber aquilo que escrevo e questionar-me em caso de dúvida, em vez de logo à primeira vir descredibilizar-me com duas pedras na mão.

  3. RedTuxer |

    Agradecia que apagasses o meu comentário anterior, tal como este. Nunca tive a intenção de descredibilizar quem quer que fosse, nem ando com pedras na mão. Por isso, apaga lá o que escrevi, fica bem.

  4. Daniel Marques |

    Com a tua ressalva feita, não haverá necessidade de os apagar.

    Cumprimentos

  5. Rúben M. |

    Vou ser curto e grosso…

    Eu escrevo português europeu, porque razão tenho que começar a escrever parcialmente português do Brasil ?

    os melhores cumprimentos,
    Rúben M.

  6. Daniel Marques |

    O silêncio do Governo nessa matéria é comprometedor. Já se falou de interesses do mercado livreiro, eu acho que poderá ser mais que isso, é também isso que tento reflectir neste artigo.

    Eu sempre pensei que a língua evoluísse de forma natural, não com decretos ou imposições políticas. E como a língua não é de um Governo mas sim de um povo, o povo deverá exigir satisfações nesta matéria.

  7. Rúben M. |

    Já agora um offtopic, e que tal um subscribe comments para este grande blog ? :P

    é que eu sou um fanático disso :P, dá um jeito brutal

  8. Daniel Marques |

    Aqui tens Rúben: http://www.danielmarques.net/comments/feed/

    E obrigado pelo elogio. ;)

  9. Eduardo Maio |

    Rúben M. concordo completamente. Se é para mudar por decreto para “uniformizar” a escrita mais vale acabarmos com o português e passarmos todos a falar inglês. Com ou sem decreto não vou escrever “contato”, “fato” ou “mouse” em vez de rato.

  10. Mário Martins |

    “globalização e capitalismo”, adorei essa tua forma de ver as coisas. A perplexidade é a soma dos catecismos… quando olhamos a doutrina da globalização até somos tentados a achar que isso é solução para todos os males. Quando vemos um rico bolinho numa prateleira de uma pastelaria, ui ui, se não o comíamos logo, ali…

    Então é tudo uma questão de globalização e capitalismo, tudo uma questão do instinto globalizador? Começo a sentir arrepios na espinha só de pensar que me esqueci desse grande e enorme argumento: “capitalismo”!!!

    A globalização, que eu saiba, não tem nada a ver com a “aproximação” no sentido da “fusão”, mas na “aproximação” no sentido de “tolerância” e “respeito”. Mas até é fácil pensar que o bolo é bem saboroso, basta olhar o aspecto, as falácias são isso mesmo, as laranjas também são doces, às vezes… Afinal de contas, tudo é uma questão de números. Melhor, uma questão de cifras! A língua vendida ao peso, tal como os bolos, procurando o reconhecimento internacional, bem crocante, estaladiça e saborosa.

    Aqui há uns anos falava-se muito em “todos iguais, todos diferentes” (ou seria ao contrário?) (e seria o contrário diferente?), eu creio que a extensão dessa frase nunca foi muito bem compreendida, nem por quem a tornou famosa e popular. Portanto, deixem ver se percebi: ou efectivamente nos tornamos mais “qualquer coisa” e menos “nós”, ou então vamos ficar sozinhos, para sempre. Ser “qualquer coisa” tem as suas vantagens, especialmente as capitalistas e globalizadoras…

    Adorei o teu post, dá vontade de comentar, que é aquilo que também falta muito por estes lados da blogosfera. Pena o resto… (que resto?)

    PS: afinal o bolo nem era grande coisa…

  11. Daniel Marques |

    Mário, só o teu comentário já dava um post. Não se comenta muito por estes lados, mas quando cai assim um comentário cheio de creme como o teu, é uma delicia. Venham mais bolos destes que “a gente” gosta.

    Obrigado pela tua visita.

  12. José Feranndes |

    <>… ‘e ele a dar e a burra a andar’!!!! Santa ignorância! Mas será que o Zé-povinho alguma vez parou para pensar que a eliminação de grafemas/letras não pronunciadas não é algo estranho ao português de Portugal? Meus caros, isso já aconteceu antes e isto não é novidade!!!

    Pois fiquem lá todos os ‘Eduardos Maios’ de Portugal a saber que se não tivesse acontecido este fenónemo antes (e sem ter nada a ver com o Brasil!!), hoje em dia teriam de escrever as formas orginais: aCtitude, práCtica, diCcionário, séPtimo, estruCtura, produCção, produCto, traduCção, satisfaCção, devo continuar?

    Pois, se são tão puristas, voltem lá a escrever com essas letrinhas e, já assim, voltem lá às forma Pharmácia e Symptoma, por exemplo, como se escrevia a inícios do século XX… E como tenho ouvido muita gente a falar de ‘purismo’, fiquem também a saber que, nesse caso, não deviam ser o brasileiros a deixarem de escrever ‘côr’, ‘flôr’, ‘fôr’ com acento circunflexo e sim nós a retomá-lo, pois era assim que se escrevia até à primeira metade do séc. XX e fomos nós que o deixámos de usar.

    Quanto ao ‘mouse’ e ‘usuário’, quem disse que os teríamos de usar? Na Madeira chamam ’semilha’ ao que nos chamamos ‘batata’ e cada um continua na sua!

    E espero que não me apareça mais ninguém com o argumento de “vamos ter de FALAR como os brasileiros”, pois ainda não percebi que parte de “Acordo ORTOGRÁFICO” é que não entenderam…

  13. Daniel Marques |

    José Feranndes, comece por respeitar a opinião dos outros e não venha para aqui ameaçar as pessoas, porque lhe aparecerão à frente as vezes que forem, pessoas com opinião oposta à sua.

    A parte de si que revela a não tolerância de posições diferentes à sua, revela também ignorância no que toca a saber viver socialmente, onde encontra opiniões diversificadas.

    Não venha impor como deve a língua ser falada ou não, ela não é minha nem sua, é nossa. Se não lhe agrada, vá viver para uma gruta.

    Antes de exigir entendimento no que ao acordo ortográfico diz respeito, opte por primeiro o levar às pessoas e explicar-lhes o que é, porque ninguém tomou essa iniciativa. A língua não se discute nos gabinetes e corredores, discute-se na rua junto das pessoas que a usam diariamente.

  14. Eduardo Maio |

    O amigo José Fernandes ferve em pouca água, tanto que até se enganou a escrever o próprio nome. ;)

    Então e no caso da palavra pára e para, uma vez que a primeira perde o acento?

    “Para João, vem um carro na tua direcção”
    “Para mim? O que é que é para mim? Uma prenda?”

    E no caso de extra-escolar e contra-regra por exemplo, em que as palavras deixam de ser hifenizadas?

    Mas já que se dirigiu directamente a mim (nem sei bem porquê, lol) acabo por lhe responder também directamente. É giro que se alguém neste país tem uma opinião diferente das duas uma, ou é um conservador e um “velho do restelo” ou então é um revolucionário ou um anarca.

    Conhece o senhor Malaca Casteleiro? Foi um dos responsáveis por este acordo, a mesma pessoa imagine-se só, que se achou no direito de grafar a palavra lobby como lóbi, e o mesmo senhor que se achou no direito de grafar a palavra bué num dicionário!

    A língua é o espelho de um povo e não deve ser o capricho de meia dúzia de pseudo-intelectuais!

  15. Paula Mendes |

    Oh Daniel, vai-me desculpar mais um “ataquezinho” de quem passou por aqui e não resiste a dizer-lhe isto: você a falar de Acordo Ortográfico e de língua portuguesa e a escrever “prenunciar” é uma coisa engraçada! Já para não falar de uma ou outra incorrecção sintáctica… :)
    «Ora prenuncie lá “electrônico”. Não lhe altera o dialecto na forma como prenunciaria “electrónico”?»

  16. Daniel Marques |

    Drª Paula Mendes,

    Em vez de se preocupar em ridicularizar, poderia ao menos corrigir. Sempre se aprendia alguma coisa consigo.

    É “pronúncia”, não “prenuncia”. Prenuncia significa anunciar antecipadamente. Fica o erro corrigido por quem o cometeu.

    A língua não é apenas usada pela escol, o que para uma elitista como a senhora, poderá causar alguma tristeza.

  17. Paula Pinto |

    A língua é património, identidade e um fenómeno vivo. Logo, enquanto património e identidade deveria ser orgulhosamente preservada, e, finalmente, sendo um fenómeno vivo não pode ser modificada por decreto ou vontade política.

    Já que querem dar um “jeitinho” na escrita para a aproximar desses muitos milhões mais do que nós, Portugueses, que a escrevem e falam à sua maneira e a meu ver bem, já agora, porque não damos também um “jeitinho” à forma como pronunciamos as palavras para ficarmos todos na mesma plataforma de entendimento? Se calhar com outro decreto consegue-se!

    Depois, digam-me, por exemplo, para pronunciar “acção” tal como o faço actualmente, se o “c” cair, por força do acordo, vou ter que colocar um acento “áção” para continuar a pronunciá-la da mesma forma? Ou a sílaba “a”-ção passa a muda?

    Por fim, queria dizer que só um País com um forte complexo de inferioridade (felizmenteadmite, não é colectivo) pode equacionar, sob os mais variados pretextos, cometer tal atrocidade contra a própria língua.

    A atestar este último parágrafo e a refutar todo e qualquer argumento economicista que vai aparecendo para justificar a aceitação deste acordo, peço, aos caros leitores, que pensem no exemplo dos Ingleses. Acham que eles vão deixar de escrever “colour”, “centre”, entre outras palavras, para passar a escrever “color” e “center” como os Americanos, só porque eles são em maior número, mais ricos ou mais influentes na política internacional?

    Preservem a Língua Portuguesa com orgulho e vaidade!

    Da Invicta cidade do Porto, com muita lealdade à minha língua.

  18. Sofia Brandão |

    Decorrerá na Universidade Lusófona do Porto, de 7 a 9 de Abril, a XIV Semana Sociológica, este ano dedicada ao tema: O ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA: PROBLEMAS LINGUISTICOS OU PROBLEMAS POLÍTICOS?

    Ver o programa em http://www.grupolusofona.pt/portal/page?_pageid=194,1529066&_dad=portal&_schema=PORTAL

  19. Mirtota |

    Subscrevo as ideias da Paula Pinto e do Eduardo. Concordo que a evolução da lingua não passa pela aplicação do decreto, assim como algumas das alterações previstas não apontam no sentido da evolução, mas doutro que não sei qual é.
    Será que depois da queda das consoantes mudas os brasileiros nos vão perceber melhor?
    Qual é a “birra” com as consoantes mudas? Os franceses tem-nas com fartura, e se há diferenças na lingua dos paises francofonos.
    Temos de perder a nossa identidade?
    Desculpem-me se estou a ser agressiva demais, mas é o que penso.

  20. Antonio Cabral |

    Ontem ouvi um embaixador brasileiro na televisão defender o novo acordo e a dado momento dizia ele “quando SI (em vez de se) manteem fonéticas diferentes há QUI (em vez de que) usar diferentes ORTOGRÁFIAS (com a aberto)dois países”.
    Então pergunto eu - se eles no Brasil pronuciam essas diferente do português porque é que não mudam essas palavras também com dupla ortografia ? Os exemplos são mais que muitos para alem de baptista/batista ou facto/fato.
    Talvez fosse melhor escrevermos “qui” em vez de “que” e porque não (já agora) “ki” uma vez que o kapa foi introduzido no alfabeto.
    Quanto ao capitalismo, concordo. A questão é cada vez mais se há ou nºao dinheiro. Se eu passar um cheque de 40000 euros, posso escrever “quarenta mil” “cuarenta mil” ou “kuarenta mil”. SE tiver lá o dinheiro pagam, se nºao tiver posso escrever em português correcto que não pagam. O resto é conversa.

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